Thursday, April 23, 2009

PARADIGMAS





Vivemos em um mundo onde os rótulos definem o que devemos consumir. Um universo de padrões. De predefinições. De paradigmas.
Conhecer o suficiente para gerar a capacidade de ignorar esses modelos é uma obrigação da literatura fantástica moderna. Conhecer as regras e quebrá-las por convicção, jamais por ignorância.

Causar o novo é preciso! Barreiras são erguidas apenas para serem colocadas abaixo. Um paradigma só é tão eterno quanto a capacidade humana de desafiá-lo.
A Coleção Paradigmas, da Tarja Editorial é justamente o ângulo que rompe a membrana entre os subgêneros consagrados para fomentar o nascimento do original. Surge para apontar alguns modelos que deram certo e as fórmulas que podem ser seguidas – ou rompidas. A proposta é apresentar contos incomuns, mesmo que baseados em paradigmas consagrados.

Este primeiro volume traz 13 autores:

Ana Cristina Rodrigues
Bruno Cobbi
Camila Rodrigues
Cristina Lasaitis
Eric Novello
Jacques Barcia
Leonardo Pezzella Vieira
M.D.Amado
Maria Helena Bandeira
Osíris Reis
Richard Diegues
Roberta Nunes
Romeu Martins

Mais sobre o projeto pode ser lido em
http://colecaoparadigmas.wordpress.com

E o primeiro volume pode ser adquirido no site da Tarja:
(
http://www.tarjalivros.com.br/detalheprod.asp?produto=36)

Ou nas livrarias Cultura e Martins Fontes Paulista
EXISTIR
este risco absoluto
(fernando mendes vianna)




A pálpebra inexistente da certeza




Os anões não tinham pálpebras.

Esta fora a primeira coisa que observara neles e , no fundo, deve ter sido a mais importante. Pelo menos a mais importante para o estado em que estou agora, no meio do nada indescritível. Notei outras coisas mais tarde, a medida em que fomos convivendo dentro do Cubo, mas não necessárias para mim.

Seus olhos eram como os das bonecas quebradas, jamais se fechavam, nem um piscar rompia a dureza daquelas íris verdes. Havia anões de olhos escuros também e era tenebroso olhar para eles, arrastantes de negrume que me deixavam noites sem dormir.

Não que isto fosse necessário no Cubo.

Dormir era uma opção como qualquer outra para os convidados, como, aliás, tudo naquele lugar. Não havia regras, nem leis, nada era sugerido ou aconselhado. Vivíamos uma liberdade aflitiva e até sair do Cubo e voltar ao mundo dito normal era permitido, mas ninguém escolhia esta opção.

Por quê? Nem mesmo eu sei. Quando tento lembrar de mim naquela época, penso que era a capacidade de poder escolher que nos inibia. A liberdade absoluta pesava tanto quanto a escravidão e incapazes de decidir entre o risco total de errar ou de acertar milhões de vezes, preferíamos ficar paralisados. Os anões nada esperavam ou cobravam de nós. Apenas nos olhavam com suas imensas íris de crianças velhas, sem pálpebras protetoras. E aquele olhar tinha o poder de nos impelir a alguma coisa que não sabíamos nem mesmo se existia.

Dentro do Cubo tudo era possibilidade e, por isto mesmo, nada se concretizava.

Eu errava por lá buscando uma escolha, mas ela não vinha. Então me perdi no olhar do anão mais próximo e cheguei ao vértice. Foi mais fácil aprender a negação. Descobri a possibilidade de não ser coisa nenhuma, sendo. De me negar a escolha.

Então cheguei, finalmente, a este nada onde estou, eternamente, sendo algo que não defino nem me interessa. E é esta a graça da coisa.

Talvez eu seja a pálpebra inexistente do olhar daquele anão. Talvez eu seja a impossibilidade de vedar o olho agudo da certeza.

Talvez eu seja apenas a impossibilidade.
Mas isto, de uma certa forma, hoje me basta.
De muito longe, entre as bétulas


“Porque eu te amo e porque eu não te amo é que nos amamos” ( Mheta Thet Agar - livro das Contradições, volume 3 , página 8.045 )


Eu te matei mil vezes. Em Órion, Em Alpha, em Vehr. Traspassei teu corpo nu com a espada flamejante em Ângelus e o crucifiquei no antigo carvalho druida da Cornualha. Eu atirei uma flecha em ti entre os índios Navajos e peguei teu coração palpitante no ritual secreto das mulheres de Elêusis. Destruíste meu corpo outras mil, nas cavalgadas e lutas, entre as silenciosas estrelas de Luthor, nas planícies geladas de Alhambra. Incontáveis anos. Mas estou cansada.

Aqui, no alto, com a mão na arma, vejo tua pele brilhando e não sinto nada. Nenhum desejo de destruição, nenhuma sede de teu sangue quente, nenhuma fome de tua carne branca. Somente um cansaço imenso, abissal, um cansaço que percorre os astros indiferentes, que me faz adejar sobre todas as coisas – navio celeste desgovernado, estrela velha prestes a se extinguir.

Nosso jogo durou tanto tempo que esqueci onde começou. Se é que começou e não foi sempre assim, nos destruindo infinitamente, renascendo para morre, matar, devorar.

A mão está firme, mas eu hesito. Teu vulto se destaca entre as outras – mulheres que não são – aquelas que acabarão - cinza espalhada sobre campos ao amanhecer.

À luz da lua elas dançam, bailarinas delicadas num teatro de sombras, passam girando e eu as destruo uma a uma e te mantenho vivo. Sinto teu desespero, a marca de tua esperança de que continue nosso jogo perverso e o sentimento é como a água escura da piscina inerte. Parado. Embalsamado por perfumes que vem de longe, muito longe, onde não estamos mais.

Tu não entendes porque desrespeito nosso jogo, porque deixo de te matar já que é minha vez, porque te poupo e estrago os milhares de anos em que nos perseguimos com amor e ódio. Tudo que não pode haver é esta indiferença opaca, este tédio vazio com que olho para as dançarinas que abati. Todas.

Menos a ti..

Quando as sombras se esgotam, quando apenas um vulto permanece sobre o chão úmido, entre o perfume das bétulas, eu, lentamente, viro a arma para o meu peito.

E atiro.

Teu grito ecoa em meus ouvidos, mas é muito tarde para nós. Perdemos o jogo, querido e ontem será, finalmente, eterno.



USAR O TEMPO






Entrei na cabine e esperei.

Precisava de muito tempo, um tempo infinito para conseguir entender. Cliquei em milhares de anos atrás, especifiquei as coordenadas e sentei. Logo tudo ficou confuso como acontece nos pedidos extraordinários. A porta da cabine se abriu alguns segundos depois.

Estava no meio do nada. Para onde olhasse só via estepes geladas que um vento fino fustigava. Mas não sentia frio, claro. Não há sensações corporais térmicas no Tempore.

Andei um pouco, perdida, olhando o céu intensamente azul, de uma tonalidade que já não existia na Terra há muitos anos. Era agradável estar ali, sozinha na planície gelada, debaixo de um céu de cobalto.

Caminhei sem destino, recitando os mantras. Parecia tudo igual e, só por isto, podia ser diferente dentro de mim.

O tigre apareceu de surpresa. Enorme, uma criatura fabulosa, de músculos elásticos e fortes, esgueirando-se sobre o chão gelado com graça lenta. Duas grandes presas alvas sobressaiam dos lábios que uma língua vermelha e úmida lambia de vez em quando. Aproximava-se de mim, mas eu não tinha medo. Esperava.

O animal pareceu hesitar e eu sentei, abrindo os braços e ainda recitando os mantras. Ele foi chegando cada vez mais perto, lentamente, os olhos dourados fixos, hipnóticos.

Eu também o fitava, calma. Desta vez não haveria desistências.

Repetia os mantras cada vez mais alto e a força deles parecia impulsioná-lo para frente. Os olhos dourados já estavam a uma distância de dois metros, avaliando, algo tensos, famintos. A língua se tornara nervosa, mas o tigre se quedara, estático, todo ele uma tensão absoluta, preparando o bote.

Com graça e agilidade felinas, ele saltou e eu caí, espalhando pedaços de gelo que se estilhaçaram com o choque. O peso dele me tirou, por um momento, a respiração. Fiquei ofegante, sentindo suas enormes patas no peito, os olhos amarelos bem próximos do meu rosto.

Indagadores talvez? Não tive tempo de descobrir. Ele abocanhou meu pescoço com as presas fortes, ouvi um estalo, uma nuvem escura cobriu meu olhar. Ainda percebi, como num sonho, o sangue se separando do corpo e formando um rio vermelho que tingia de cor a alvura uniforme da estepe gelada.

Quando regressei à cabine, uma estranha paz me invadiu. Podia voltar ao meu verdadeiro tempo. Estava pronta para enfrentar o que me esperava lá fora.

Abri a porta. Chovia como sempre. As gotas se refletiam nas luzes dos altos edifícios de cristal. Pessoas passavam por mim, indiferentes e eu a elas.

Só que agora eu tinha um tigre, tinha uma morte, tinha uma experiência verdadeiramente minha.

Suicídios não são permitidos nesta época, mas usar o tempo sim.




Monday, December 29, 2008

Que venha 2009!


"O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio
É um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre
É um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.”
(Jorge Luis Borges)
Imagem: Maria Helena Bandeira sobre quadro de sua autoria



E o tigre de mil bocas rolou, estilhaçando o solo.
A cotovia cantou em algum lugar do Norte.
E a fumaça subiu enquanto assavam búfalos
E galos fugiram do amanhecer, mudos de espanto
E Pedro negou dez, Judas beijou quarenta,
E todos os jornais negaram infinitas vezes.
E ouro escorreu pelas mãos ávidas dos poderosos
Enquanto o tigre de mil bocas, faminto
Levantou seu dorso esquálido
E com uma só patada,
destruiu, engoliu, arrasou
E comeu
Ricos e pobres, brancos e negros, judeus e palestinos
americanos e árabes, europeus e latinos,
oriente e ocidente
oceanos e nuvens
O tigre de mil bocas digeriu o mundo
Depois dormiu cem anos esperando o Messias
.



TEIA



E então....

Havia goteiras no telhado por onde entrava uma chuva comprida, fio de mel. Sentada na cadeira do poente, ela bordava. Vestia o casaco azul em que morava o lago, beijava o canário e consultava o céu aguado e cinza. Criava desenhos – carneiros, roda de meninas, relógio de sol. Puxava fios invisíveis para fazer dançar os encantados do tempo.

A água escorria na vidraça em ré e o fogo respondia em dó. O soldado morto repousava rindo no retrato da antiguidade. Ela costurava vidas. Com laçadas finas ia combinando pares, descosendo amores, refazendo casas, destruindo. Dentes serrilhados cortavam o fio, sopro se apagava. Longe, na fímbria do mar, marinheiro perdia o rumo, barco se estilhaçava no rochedo. Ela molhava o pano com lágrimas sutis.

Depois sorria, retomava o bastidor e o moço alegre beijava a menina de vestido azul. Lábios macios procuravam seios, boca de gerânio, perfume de alecrim. Os dedos rápidos uniam, os dedos finos descasavam. Quando cansou de tecer, chuva se fora. Mil estrelas cairam sobre ela, chuveiro de brilhantes. Explodiu algumas só de brincadeira.

Seu sono demorava, mas quando vinha latejava forte. Abandonou a teia. Canário cantou para dentro, ela soprou um beijo de mormaço, despiu o casaco onde morava o lago e se deitou na trave da cozinha.

Dormiria mil dias e com ela o mundo. Parado. Os relógios, sem tempo. As pessoas, sem alma. Os barcos, no cais. Mares, congelados. Pares, eternamente juntos. Os assassinos com a faca na mão, gesto cortado. O grito suspenso nas bocas do medo.

De repente...

O soldado morto no retrato que sorria antiguidade entrou cantarolando na casa adormecida. Consertou as goteiras no telhado e a chuva derrubou torrentes na vidraça, sopa de melado. Sentou na cadeira do poente e cantou o amor. Beijou o casaco azul onde morava o lago, acordou o canário belga e riu para o poente vermelho da descoberta. Desfez os bordados da espera, rasgou teias de tempo, reacendeu o fogo que cantou em dó.

Da trave do teto ela suspirou. Caiu suavemente nos braços do soldado renascido da morte.

E o mundo despertou.
Imagem: Camille Pissarro

Mas se uma verdade individual é tudo que um livro pode conter, resta-me aceitar escrever a minha. O livro das minhás memórias? Não. Se a memória é verdadeira, ela o é enquanto não se fixa, não se encerra em uma forma. O livro dos meus desejos? Estes também só são verdadeiros quando seu impulso opera independentemente de toda vontade consciente. A única verdade que posso escrever é a do instante que vivo.
(Ítalo Calvino)


FELIZ ANO NOVO


Para os amigos - os atuais, os ex, os futuros. Para quem curte e quem odeia finais de ano. Para quem acredita em tempo fatiado e quem é agnóstico. Para os ateus e os crentes. Para quem vem aqui e lê meus textos ou apenas passa pelas ilustrações. Para todos.

Cultivo una rosa blanca,
en julio como en enero,
para el amigo sincero
que me da su mano franca.

Y para el cruel que me arranca
el corazón con que vivo,
cardo ni ortiga cultivo:
cultivo una rosa blanca.

( José Marti)

Sunday, November 30, 2008

TE PROCUREI

“Há dois mil anos te mandei meu grito...”
(Castro Alves)
Imagem: Maria helena Bandeira

Chovemos

E ainda estamos aqui, parados, esperando a hora.
E por todos os séculos choramos e acreditamos e nem assim você apareceu. e pensamos que haveria uma chegada com trombetas, mas só veio o silêncio imprevisto da noite eterna. E pensamos que estrelas brilhariam, mas nossos olhos contemplaram o vazio negro da ausência.
E esperamos um sol de verdades ofuscantes, mas só houve o brilho de nossas próprias lanternas cegas.
E conhecemos que estávamos sós, no barro, na lama, no pó de onde viéramos.
E apenas a chuva nos molhando enquanto aqui, como estátuas de pedra, esperamos

E de olhos fechados, chovemos.

MÍNIMO MÚLTIPLO COMUM
Imagem: Maria Helena Bandeira


- Boa tarde. Recebi este papel dizendo que eu deveria me apresentar aqui hoje.
- Segundo Piso. Próximo.
- Como assim Segundo Piso? Aqui está escrito Primeiro.
- Você se apresenta no Primeiro e eu encaminho pro segundo. Próximo!

****

- Recebi este papel e a moça do Primeiro Piso me mandou pra cá.
- Como era o nome da moça, Senhor?
- Não sei, ela não me disse, só mandou que eu...
- Sem o nome da pessoa que o encaminhou não posso fazer nada. O senhor vai ter que voltar e se informar. Próximo.

****

- Senhor, está furando a fila...
- Mas eu estive aqui, lembra? Só preciso saber seu nome porque a moça do Segundo Piso...
- Sinto , Senhor, mas precisa esperar na fila.

****

- Pronto, está aqui
- O que?
- O nome da moça do Primeiro Piso. A outra atendente me disse que precisava esta informação.
- Tem o CPF?
- Está aqui.
- Mas este é o seu CPF!
- Claro, sou eu.
- O senhor não entendeu. O CPF da pessoa que o encaminhou ao Segundo Piso.
- Mas ninguém me disse nada! A outra atendente disse que eu precisava apenas do nome!
- Sinto ,senhor, vai ter que voltar ao Primeiro Piso

****

- Moça, já perdi quatro horas em duas filas, mas consegui o CPF da atendente que me encaminhou.
- Muito bem, Senhor, agora vou carimbar seu protocolo e pode se dirigir ao Terceiro Piso.
- Como assim? Eu nem sei o motivo de ter sido chamado! Vim porque o comunicado era urgente e poderiam suspender meu pagamento. Você pode ao menos me informar qual é o assunto?
- Sinto, senhor, minha função é verificar os dados do Primeiro Piso. Próximo!

****

- Estou vindo do Segundo Piso após ser encaminhado pelo Primeiro Piso atendente ***, CPF ***
- Quem o encaminhou do Segundo Piso? Preciso do nome e CPF do atendente
- Nãooooooo ! Vai começar tudo de novo? Não dá para você simplesmente me dizer porque fui convocado com urgência a este departamento?
- Sinto, senhor, estas não são as minhas funções. Próximo.

****
- Este é o décimo piso?
- É sim. O último.
- Nem acredito! Trouxe o nome e o CPF dos atendentes de todos os andares anteriores.
- Muito bem, senhor. Em que posso serví-lo?
- Recebi esta convocação urgente.
- Deixa eu ver o papel. Carteira de identidade e CPF por favor.
- Está tudo aqui: Identidade, CPF, Título de Eleitor, Carteira de Sócio do Flamengo, Plano de Saúde, cartão do SUS...
- Cartão do SUS?.. Não vai dar.
- Qual é o problema?
- Os segurados do SUS devem comparecer ao prédio em frente, mesmo departamento, Primeiro Piso.
- E você deve comparecer diante de São Pedro!

****
- O que houve?
- Mais um segurado tentou assassinar um atendente. Depois se jogou pela janela dizendo que ia procurar o Primeiro Piso
- Tem doido pra tudo. Próximo.
A ESTRADA

“Não há caminho, caminhante, o caminho se faz ao caminhar”
Imagem : trabalho sobre quadro de Paul Christiaan Boos


Esqueletos de pássaros pressagiam o enorme silêncio. Bois descarnados brilham ao sol.
Nenhuma indicação na estrada. Apenas a marcação dos quilômetros para o topo. O suor escorre dentro da gola, umedece o pescoço causando arrepios. Não há árvores, só milharal até onde a vista alcança.
Subo com dificuldade, um pé diante do outro, olhando para o céu, nunca para o vale. Céu azul, sem nuvens. A claridade dói nos olhos, mas insisto.
Pareço entrar na imensa bola sobre mim e isto me dá ânimo, sugado pela lâmina curva do mundo verde e bege.
Lágrimas impedem a visão, tropeço, caio.
Olhar para o alto é perigoso, repete meu senso comum.
Visualizo as pedras da estrada. Antes pareciam amigas, agora incomodam, cortam a sola do calçado, apodrecem minha determinação alagada de suor.
Ignoro a dor, uma perna, outra perna, subida cada vez mais íngreme. Campos desaparecem, surgem paredões, cortes abruptos para o vazio.
Tento esquecer a paisagem, não resisto, chego na borda e olho.
Vertigem.
Os campos cortados por veios amarelos, estradas bifurcantes, esqueletos alvos faiscando ao sol.
Não há som, nenhum vento. Nada.
Nem dos meus passos na luta contra o cascalho adensado.
Prossigo. Mais teimosia que vontade, esgotado.
Tento olhar o céu novamente, o azul laminado machuca, enxugo as lágrimas com a manga, olho para as pedras e o crânio pequeno de um animal indistinto.
Não sofro.
Minha determinação é maior. Impossibilidade de retroceder, paixão de continuar, atingir o topo que ainda não consigo ver mas existe.
Um pé diante do outro, uma perna levantada, outra arrastada sobre as solas feridas, o calçado roto.
Olhos doendo, tiro a camisa empapada, espero uma brisa que não vem, um canto que não existe.
Continuo. Sem fé, sem coragem, sem medo. Subindo. A respiração difícil. Aspiro um ar de toneladas, os pulmões doem no esforço, a garganta seca se contrai, a língua uma fita de couro ardendo, mastigo o vazio.
De repente, o topo. Não há mais estrada, só céu engolindo o mundo.
Ando com mais força, as pedras rolam sob mim, deslizam, caindo sem barulho.
Finalmente paro diante do vazio. O precipício vertiginoso. Respiro com dificuldade. Cheguei.
Volto os olhos por instinto e vejo a placa, quase encoberta por milhares de ossos ressequidos:
Tudo termina aqui.
Minha carne começa a tremer, o jogo é perverso demais, não vou aceitar.
O abismo é a continuação, o abismo vai me redimir, me salvar das garras do inevitável.
Meu corpo desce vertiginoso, depois plana e cai suavemente no milharal.
Ar puro inunda os pulmões. Choro de alegria antes de ver o novo cartaz:
Aqui tudo começa.

************

"Não sabemos sequer o que somos, quanto mais o que é a realidade exterior da qual somos parte” (Philip K. Dick em Valis)

“Disse assombro onde outros dizem apenas hábito.” ( Borges em Quase Juizo Final)




Tuesday, October 14, 2008

40 Anos sem Bandeira





Evocação de Bandeira


Meu tio, Manuel.
Não o parente famoso
Que assombrou meus jantares de menina
Nem mesmo o que me deu a fábula traduzida
Com versinhos delicados para a criança que eu era
Não o sorriso dentuço, a voz anasalada
Que no disco antigo recitava
boi morto, boi morto
boi descomedido
boi espantosamente
Meu tio, Manuel
E a dedicatória em charada
Para o dicionário da menina
apaixonada por enigmas
Ama ri ah e lê
Na Bandeira
Do tio Manuel
Não o franzino parente
Que visitei já doente
Na Teresópolis distante
Não a presença da morte
Não a doença constante
Mas a eternidade plena
Que só entendi bem tarde
No Itinerário
Da Pasárgada familiar
Meu tio, Manuel
Que me legou este amor
Pela palavra juntada
Para formar outras coisas
Meu tio cinza das horas
De versos como quem morre
A memória permanece
Intacta, solta no ar
Mas é lá longe no reino
Onde o rei é nosso amigo
E Joana a Louca de Espanha
Vem a ser contra parente
que nos descobrimos juntos
ligados
Profundamente

********

Arte de Amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.

A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


*************

Canção das duas Índias


Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medéias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela-d'alva
Longínquos como Oceanias
- Brancas, sobrenaturais
Oh inacessíveis praias!...

************

O CACTO


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária!Laocoonte constrangido pelas serpentes.
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, catingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a cidade de iluminação e energia:
- Era belo, áspero, intratável.


***************

Saturday, August 30, 2008

23 DE AGOSTO
EU
imagem: maria helena bandeira
meu quadro em violeta




“Na Malásia sou moura, tenho pássaros nos pés e um lagarto por companhia. Ás vezes ele me morde”

“Sou um edifício de estiletes, me cortando de beleza. Pura lâmina”

“E a dor esgarçada atrás da porta. Escondida por anos de ironia”

“Não acredite em mim quando minto, eu minto para que tenha significado”

“”Uma cama, a cadeira e esta grave feição de camponesa loura
sorrateira”

Alguém
Apague a luz da realidade

Quero a fantástica tormenta
Da inverdade

*************

Às vezes eu tenho frio, eu tenho medo,
eu tenho pena
em outras eu adormeço ao teu redor

************

Chove e eu sei disso dentro de mim.
É dentro de mim que a chuva escorre mais intensa.
Onde meu coração perdeu o abrigo.

************

como se o tempo escoasse pela madrugada
como se estar aqui fosse um problema
como se não existisse o meu poema
como se eu fosse feita de palavras
como se eu te pudesse falar coisas
como se eu te pudesse perceber
como se fosse longe o teu carinho
como se fosse perto tudo ainda
como se fosse ontem - não agora



Estar aqui provável
Neste estio
Neste tédio, este caos
Este vazio
Estar aqui enfim
Ao todo
E em desafio
Talvez seja existir
Talvez seja
Arrepio

*********

Invasão


Ele me invade
Não como conquistador
Cabral de terras virgens
Iinvade-me
Como a música de Billie
Sonora e triste
Deixa esta marca singular
Quem sabe o amor existe?
Invade-me depressa e lentamente
Como se a verdade
Fosse a voz rouca e intensa
Do acidente


***********

Na Malásia tem gente que acredita
Em brincos de jade amarelo
ou faisões tropicais
Ainda meninos

Na Malasia cultivo cisnes vermelhos
Que em junho viram girafas de duas cabeças
e em dezembro sorriem.
Na Malasia é domingo
todos os dias da semana
E de vez em quando neva
Dentro de casa.
Na Malasia todos os pardos são gatos.
Na Malasia politicos são corvos
Devoram carniça nas praias
e vomitam
lindos poemas de amor
sem nenhum sentido

Na Malasia todos os crimes
são capitais
de paises imaginários.


Sou uma certeza latejando
Dentro da noite que se esvai.

Wednesday, July 30, 2008

Espreita e busca

“Longínquos como Oceanias- Brancas, sobrenaturais

Oh inacessíveis praias!...”

(Bandeira – Canção das Duas Índias)








Uma Noite em Paris


A névoa cobria a cidade, deixando entrever a ponta brilhante de alguns prédios no horizonte.
Não sabia quem era, de onde vinha, para onde ia.
Olhei o terraço ao meu redor: como viera parar ali?
A única coisa clara em minha mente era: preciso matar Paulus. Só que não tinha a menor idéia de quem era Paulus.
Seria meu inimigo? Ou eu seria inimigo dele? Um serial killer, um matador de aluguel? Nada disto ecoava na memória vazia.
Somente a frase, nítida.
Paulus estaria naquele prédio? Estaria neste momento bem atrás de mim, esperando para me pegar antes que eu o pegasse?
Avaliei a situação olhando a névoa aumentar, luzes sumindo na escuridão opaca. Não sabia
Como cheguei aqui?
No fundo do terraço, do outro lado da borda onde me encontrava, uma porta em arco se abria para o interior iluminado. Eu devia ter vindo de lá
A menos que tenha saltado do espaço. Mas aerobus e aerotaxis não estacionavam fora dos pontos.
Como eu sabia disto? Não fazia idéia.
Andei até o interior iluminado com a sensação urgente de que precisava matar Paulus.
Não havia ninguém no salão luxuoso. Olhei minhas roupas surradas: certamente não morava ali. Seria empregado de Paulus?
Tudo estava silencioso, apesar das luzes acesas. Telões apagados, telefones desligados.
Andei até a porta, descobri um tubo volante.
Na mesma hora soube que podia me levar para fora ou para baixo. Tive certeza de que chegara nele embora não lembrasse porque.
Já que não tinha referências além do exterior ao meu redor, preferi descer os andares e tentar descobrir Paulus.
Mas como faria isto? Não podia simplesmente sair perguntando a todos que encontrasse. Poderia me enganar, matar o Paulus errado. Isto supondo que tivesse coragem de assassinar um desconhecido sem outra razão além da frase incessante na cabeça.
Tomei o tubo, desci ao térreo.
As portas se abriram para um saguão, vidraças refletindo a névoa escura pontilhada de luzes embaçadas.
Nada me parecia familiar.
Saí, um vento gelado me obrigou a fechar o casaco. Os olhos ardiam na umidade, não enxergava nada diante de mim.
Andei horas, guiado por um instinto predador inexplicável.
A névoa ficou menos densa, estava numa praça, diante de um chafariz envelhecido.
Sentei-me para descansar, o mantra girando na cabeça: destruir Paulus.
Da escuridão surgiu um casal abraçado. Ele segurava delicadamente os ombros da mulher, curvado sobre seu rosto corado de frio.
O reflexo me fez saltar sobre o homem.
Paulus foi rápido, mas eu sabia atirar melhor. Caiu espirrando sangue sobre a companheira.
Eu não ouvia nada. No silêncio de gritos ocos percebia a memória voltando: meu corpo seqüestrado, a identidade roubada junto com as lembranças.
Paulus, seqüestrador de vidas.
Com a morte dele, o código que protegia as memórias roubadas era apagado, eu voltava a existir.
Olhei a mulher. Será que a conhecia?
Lembranças vagas de uma noite em Paris. Madeleines, você disse. Ou foi Veneza?

***********




Pintura: Leonor Fini

Muito louco, bicho!


A carta que mais amo no Tarô é o Louco. Ele é também o andarilho, o que não tem regras fixas, e permaneceu, até hoje, como o coringa - o que não se enquadra a nada e se adapta a tudo, o que muda o jogo.

No livro "Jung e o Tarô - uma jornada arquetípica" , da Sallie Nichols, a epígrafe do capítulo sobre o Louco é um verso do William Blake - " Se o homem persisitisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio" Só que eu discordo da idéia de tornar-se sábio. A loucura em si é o caminho. O meio é a mensagem.

O louco tem a função do bobo da corte, mostra que o rei está nu. Mas como é muito desagradável este desnudamento, a sociedade estabelecida o veste com roupas de palhaço. Eis porque o humor pode ser tão corrosivo. É permitido a ele ser Louco. O Louco diz o que ninguém quer ouvir, faz o que ninguém se permite, vai onde outros tem medo de ir.

É o outro que nos rotula loucos. Somos o que somos, mais o que nos colocaram como sendo. Sem o outro talvez eu não fosse totalmente. Sei lá. Este negócio de acerto e erro acaba nos enredando. Se acerto, mas penso que erro, estou errada ou certa? Estou errada, porque penso que erro quando acerto. Mas estou certa porque acertei. Então errei em me achar errada. Melhor deixar estes conceitos de lado. Não existe certo e errado em si, mas no contexto. Há um excelente conto russo - A conversão do diabo, de Andreiev - em que um diabo já velho e cansado tenta se converter ao catolicismo com a ajuda de um, inocente e também velho, pároco de aldeia. Os dois não se entendem porque é impossível explicar para a lógica racional do diabo as contradições da ética cristã. Tudo depende do contexto - matar, roubar, trair. Não há atiradores de pedra imunes ao erro.

Minha corda bamba é o paradoxo da loucura que se pensa desde sempre - manter controlado o delírio, enquadrá-la no racionalismo sem deixar que ele me manipule, entender meus demônios . Há uma lógica desagradável e implacável por trás da loucura. Talvez ela tenha me impedido de ser maior do que eu.

Ser racional é basicamente filtro. A loucura é a expansão da mente a um nível além do permitido para bem viver. O racional peneira o trigo e nos vende as lentilhas da realidade. Trocamos o paraíso pelo possível. Mas é o único jeito. A loucura é solitária.

O discurso do Louco é a não-linguagem.. O discurso do Eu livre da realidade imposta.
O Eu experimenta Eu e os Outros. O Louco talvez se aproxime do bebê que ainda não separou sujeito de objeto. O sentimento oceânico da expansão de consciência pode ser uma memória desta fase.
Enfim, tudo não precisa ser como sempre foi. Existem outras formas de perceber.
Há uma velha piada que diz:

O normal sabe que dois mais dois são quatro.O psicótico pensa que dois mais dois são cinco.
O neurótico sabe que dois mais dois são quatro, mas é isto que ele não pode suportar.

A loucura pode ser nossa moeda para sobreviver num mundo sem sentido. Ou paga, ou desce.


Desenho: Benevento ( julho 2008)

Thursday, July 03, 2008

ON DEMAND



Imagem: Iositaka Amano


Borges e os ornitorrincos eternos



“Todas as frases já foram ditas”

O velho repetiu diante das altas montanhas do mosteiro Loseling em Karnataka na Índia, reconstrução do antigo mosteiro de Lhasa, invadido pelos chineses em 1959.

Fabio Fernandes, jornalista e escritor brasileiro, encontrou o poeta quando morava no local em busca de inspiração para seu último conto sobre uma sociedade alienígena afinada com o budismo tibetano.

Ele se mantinha sentado, na direção dos contrafortes como se pudesse ver. Talvez visse.
Fabio se aproximou incrédulo:

- Borges?

Os olhos cegos se voltaram, uma pálpebra ligeiramente mais abaixada do que a outra:

- Desgraciadamente soy Borges.

Fabio segurou a deixa e respondeu, citando o mestre:

- Desgraçadamente o mundo é real.

Neste momento eu acionara a tecla SAP porque embora o personagem fosse fluente em várias línguas, eu como narradora onisciente não conseguiria manter um diálogo em espanhol. Assim, Borges, milagrosamente, passou a falar português.

- Copio a mim mesmo – replicou irônico. E repetiu:
- Todas as frases já foram ditas. Todas as obras escritas.

O jornalista novamente não deixou passar:

- A teoria do tempo circular. Ou do universo circular. Tudo irá se repetir, inexoravelmente.

Neste momento, Fábio interrompeu o texto e me repreendeu:

- Inexoravelmente é dose. Eu não falo assim. E você está me usando como escada para dialogar com seu mestre. Tô fora.

Tentei argumentar que se tratava de uma ocasião única, nunca mais eu encontraria Borges pessoalmente. Chamei atenção também para as dificuldade visíveis do conto: eu não tinha a menor idéia de como era um mosteiro tibetano por dentro e não tinha tempo de pesquisar. Além de conhece-lo pouco hoje em dia, ainda mais vinte anos atrás, quando se passa o conto. Ignorei o fato de que não situara o texto no tempo.

Mas Fabio já me abandonara em direção ao seu próprio conto ou ao do Clinton, outro escritor brasileiro a presenciar o encontro histórico.

Só me restou procurar um título surrealista, plagiando descaradamente Veríssimo. Afinal “todas as frases já foram ditas”

Como escreveria Borges. Circularmente.


********



Web Hosting Services